A essência da Chandon, segundo sua diretora global de Brand Culture

Em entrevista a Versatille, Morgane Pont-Bruyns explica como a cultura da empresa orienta decisões em cinco países, fala sobre sustentabilidade, novas gerações e o futuro dos espumantes de baixo teor alcoólico

Morgane Pont-Bruyns da Chandon
Morgane: "Meu trabalho é construir narrativas consistentes o suficiente para preservar a identidade da Chandon, mas flexíveis para dialogar com diferentes culturas" (foto: André Ligeiro/divulgação)

Por Celso Masson

 

Com operações na Argentina, Brasil, Estados Unidos, Austrália e China, a Chandon construiu uma identidade capaz de atravessar continentes sem abrir mão das particularidades de cada mercado. Uma das responsáveis por esse equilíbrio é a francesa Morgane Pont-Bruyns, Global Brand Culture Director da maison.

 

Versatille: Você costuma dizer que a Brand Culture é uma mentalidade, e não um departamento. Como essa filosofia funciona na prática?

Morgane: A cultura da marca não pertence a uma equipe específica. Ela é compartilhada por toda a organização, seja entre os enólogos no Brasil, os viticultores na China ou a equipe de marketing na Califórnia. Cada decisão passa pela mesma pergunta: “Isso tem a essência da Chandon?”

Temos referências comuns — nossa história, nossos valores e uma linguagem emocional compartilhada — que fazem a coerência acontecer de forma natural, sem depender de regras rígidas. Quando as pessoas acreditam genuinamente na cultura da marca, isso aparece em todas as experiências que criamos. Existe uma diferença muito clara entre um evento simplesmente executado e outro verdadeiramente vivido.

Essa mentalidade também nos torna mais ágeis. A cultura evolui rapidamente e, quando ela está incorporada ao modo de pensar das pessoas, conseguimos responder com autenticidade sem correr atrás de tendências passageiras.

 

Versatille: Como manter uma identidade global operando cinco vinícolas espalhadas por quatro continentes?

Morgane: No papel, isso poderia parecer uma receita para a fragmentação. Na prática, é um dos desafios mais estimulantes da minha carreira. Meu trabalho é construir narrativas consistentes o suficiente para preservar a identidade da Chandon, mas flexíveis para dialogar com diferentes culturas. A identidade não muda; o que muda é a forma como ela ressoa em cada lugar.

A coerência da marca nasce de dentro para fora. Se nossas equipes em Mendoza, Napa Valley, Yarra Valley, Ningxia ou Rio Grande do Sul não compartilharem o mesmo orgulho e sentimento de pertencimento, isso inevitavelmente aparecerá na forma como a marca será percebida pelo consumidor. Os sotaques mudam, assim como as paisagens e os ciclos de colheita. Mas os valores permanecem os mesmos.

 

“Para nós, luxo sempre significou qualidade com consciência”

 

Versatille: No Brasil, a Chandon lançou o Névoa das Encantadas, primeiro espumante da marca com certificação sustentável. Como a sustentabilidade redefiniu o conceito de luxo?

Morgane: Eu diria que ela não redefiniu. Sempre fez parte dele.

Desde que os pioneiros da Chandon chegaram a Mendoza, em 1959, aprendemos que não é possível produzir vinhos excepcionais sem compreender e respeitar a natureza. Para nós, luxo sempre significou qualidade com consciência.

Hoje, todos os vinhedos próprios da Chandon Brasil possuem certificação PIUP (sigla para Produção Integrada de Uva para Processamento) de viticultura sustentável. Além disso, uma parcela de cerca de 36% da área total das propriedades é destinada à preservação da vegetação nativa e da biodiversidade. Nosso levantamento mais recente identificou 177 espécies animais, incluindo quatro ameaçadas de extinção. Isso não é marketing. É resultado de decisões tomadas ao longo de décadas por pessoas que incorporaram essa visão ao seu modo de trabalhar. O Névoa das Encantadas representa justamente essa maturidade.

 

Versatille: Como conquistar millennials e consumidores da Geração Z sem perder o prestígio histórico da marca?

Morgane: Existe um equívoco ao imaginar que consumidores mais jovens querem marcas menos sofisticadas. Eles são mais informados, pesquisam mais e cobram transparência. O Chandon Spritz é um bom exemplo. Levamos quatro anos e desenvolvemos 64 receitas até chegar ao resultado que buscávamos. Não fizemos isso pensando especificamente na Geração Z. Apenas seguimos o padrão de qualidade da Chandon. É exatamente isso que essas gerações valorizam. Nosso prestígio nunca esteve baseado na exclusividade pela exclusividade, mas na qualidade dos espumantes, no espírito pioneiro e na autenticidade. E autenticidade não pode ser fabricada.

 

“Aprendi que nenhuma estratégia funciona se as pessoas não se reconhecem nela”

 

Versatille: Depois de tantos anos no grupo LVMH, qual foi a principal lição da liderança multicultural?

Morgane: Liderança não significa ter a melhor visão. Significa fazer com que essa visão seja compartilhada. Aprendi que nenhuma estratégia funciona se as pessoas não se reconhecem nela. Por isso, ouvir antes de liderar é essencial, especialmente em ambientes multiculturais. Contextos diferentes exigem sensibilidades diferentes. Também aprendi que diversidade não é um problema a ser administrado, mas uma fonte extraordinária de criatividade.

 

Versatille: Os espumantes sem álcool ou de baixo teor alcoólico vieram para ficar?

Morgane: Não se trata de uma tendência, mas de uma transformação no comportamento do consumidor.

O grande desafio é oferecer menos álcool sem abrir mão da qualidade. Muitos produtos disponíveis hoje perdem estrutura e complexidade porque o álcool é retirado depois que o vinho está pronto.

Acredito que o caminho seja outro: desenvolver vinhos de baixo teor alcoólico desde a origem, trabalhando a uva, o terroir e o processo de elaboração. É exatamente nessa direção que a Chandon está trabalhando. Em breve teremos novidades.

 

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