Em “O Ninho”, seu livro de estreia, Bethânia Pires Amaro fala sobre vivências femininas dentro do ambiente doméstico
A obra rendeu para a autora prêmios como o Sesc de Literatura, a APCA de Literatura e o Jabuti

Durante a pandemia da Covid-19, a advogada pública Bethânia Pires Amaro decidiu que a literatura ocuparia um espaço maior em sua vida. Graduada em direito pela Universidade Federal da Bahia e mestre em direito do Estado pela Universidade de São Paulo, a autora, nascida em Recife e criada na Bahia, procurou cursos e oficinas para estudar teoria literária e técnica narrativa. “Durante a prática, especialmente na escrita de contos, gênero ao qual me dedico desde a universidade, pensei pela primeira vez em montar um projeto coeso de um livro. Dois anos depois, nascia O Ninho“, fala em entrevista à Versatille.
As histórias contadas por Bethânia em seu primeiro livro giram em torno de vivências femininas e violências domésticas que são perpetuadas por gerações. “Enquanto escrevia o livro, tentei oferecer uma experiência que trouxesse o leitor para perto do texto, que o instigasse e o colocasse diante de alguns dilemas que as mulheres enfrentam e para os quais não há soluções fáceis.” As narrativas potentes dos contos renderam para a autora prêmios como o Sesc de Literatura, a APCA de Literatura e o Jabuti. Confira, na sequência, a entrevista.
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Versatille: O Ninho é seu livro de estreia e fala sobre relações familiares sob a ótica feminina. De onde veio a inspiração para os contos?
Bethânia Pires Amaro: Percebi que os temas ligados à família estavam se infiltrando muito naturalmente no meu texto. De início, eu planejava escrever um livro de contos curtos de humor, mas cada vez mais me surgiam ideias ligadas à maternidade e às vivências femininas dentro do ambiente doméstico. Aos poucos, a temática passou a permear a maioria das minhas histórias, inspirada em diversas experiências familiares, minhas, de amigas ou de outras mulheres que me tocaram de uma forma especial. Penso nesses contos como fotografias de lares e mulheres brasileiras, com enfoque em questões muitas vezes difíceis, para as quais não há respostas prontas.
V: Muitas vezes, as mulheres são percebidas pela sociedade como “heroínas” ou “perfeitas”. Em seu livro, você joga luz nas imperfeições, nas dificuldades e nas violências que as mulheres podem cometer. Qual foi o desafio de trazer essas experiências para as páginas? Como foi a recepção do público?
BPA: Eu quis abordar violências cometidas por mulheres contra outras mulheres no âmbito familiar. É muito comum que haja padrões tóxicos dentro de uma família, passados de geração em geração sem maiores questionamentos, comportamentos problemáticos que são naturalizados e causam um histórico de traumas. Tratando-se de questões que muitas vezes são um ponto cego dos personagens, um dos maiores desafios foi trabalhar a apresentação dessas histórias para que o leitor pudesse perceber algo que a própria narradora não havia percebido sobre si ou sobre a situação que estava vivendo. Por exemplo, uma pessoa que vomita sempre depois de comer porque viu a mãe fazendo aquilo a vida inteira não necessariamente entende esse comportamento como algo nocivo. Penso que, dessa forma, o leitor se torna mais ativo e engajado na leitura do livro, e não se reduz a mero recipiente de um conteúdo – é preciso que o leitor se envolva, interprete, discuta. Felizmente tenho recebido um retorno muito positivo nesse sentido.

Foto: Divulgação
V: Para você, qual é a importância de tratar desse assunto agora?
BPA: A pandemia nos mostrou com ainda mais clareza que a casa nem sempre é um lugar seguro para as mulheres. Além da violência doméstica, o seio familiar muitas vezes abriga uma série de comportamentos violentos e padrões abusivos que são naturalizados e repetidos por muitas mulheres ao longo da vida. É possível que uma mulher sofra racismo da própria família, por exemplo, ao receber sugestões de alisar o cabelo, ou que receba comentários tóxicos sobre seu peso, sua aparência, sua forma de ser no mundo. A particularidade desse tipo de violência é que ela comumente passa despercebida, porque entende aquilo como um conselho, uma ajuda, e por isso repete esse padrão com suas filhas e suas amigas, perpetuando o ciclo. Por isso acho importante lançar luz sobre essas questões e trazê-las para o debate.
V: Você tem projetos para publicar outros livros?
BPA: Sim, o meu próximo livro, um romance, será publicado em 2026 pela editora Record, e por enquanto posso adiantar que também abordará relações familiares entre mulheres e dinâmicas sociais predatórias ainda muito comuns na Bahia. Mas pretendo retornar aos contos em breve.
Por Marcella Fonseca | Matéria publicada na edição 139 da Versatille



