10 chefs brasileiros compartilham seus pratos afetivos de festa junina
Bolo de macaxeira, paçoca de pinhão e sopa paraguaia são apenas alguns exemplos de pratos tradicionais da festividade

A festa junina — e todas as suas tradições, com roupas, comidas e danças típicas — é uma das grandes paixões do povo brasileiro. Segundo historiadores, o Brasil celebra a data desde o século 16, quando o costume foi trazido para solo nacional pelos portugueses, durante o período da colonização.
Original da Península Ibérica, a celebração tem origem pagã. O mês de junho sempre foi marcado por festividades pedindo fartura nas colheitas, já que o período marca o fim da primavera e o começo do verão no hemisfério norte. Como a Igreja Católica não conseguiu extinguir essa tradição, decidiu aproveitar os dias dos santos mais populares comemorados em junho, São João, São Pedro e Santo Antônio, para dar um caráter religioso à data.
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Esse é o contexto histórico da festa, mas sabemos que, uma vez no Brasil, ela começou a ganhar novas roupagens, com diferentes tradições de acordo com os costumes e a cultura alimentar de cada região do Brasil. São tantas variáveis que a Versatille decidiu conversar com chefs que cresceram em diferentes partes do país para entender quais as memórias afetivas de cada um quando se trata de comida de festa junina.
Não foi possível contemplar todos os estados, mas a seleção abaixo dá uma boa pincelada na diversidade cultural que carregamos. O milho, por exemplo, é um ingrediente muito citado, mas sempre em meio a uma receita diferente, com grande versatilidade. Confira a seguir:
Saulo Jennings, A Casa do Saulo
Pará

Foto: Vitor Alvarenga
“Tenho memórias juninas com fogueira acesa na beira do rio Tapajós ou nas festas de Santarém. A família reunida e a gente brincando de pular fogueira, estourar bombinhas e dançar quadrilha. Lá em casa, sempre teve mujica nesses dias, que é um caldo quente feito do espinhaço e das aparas de peixe engrossado com farinha de mandioca. Daqueles caldos que dão uma suadeira e sustentam a gente brincando por horas. Outra coisa que não podia faltar era o bolo de macaxeira, bem molhadinho, com aquele toque de coco ralado e erva doce. Também tinha o vatapá de pão dormido, com camarão e arroz para acompanhar. São memórias que me lembram da força da nossa cultura e da beleza que é celebrar os ciclos da Amazônia.”
Ana Bueno, Banana da Terra, Restaurante Café Paraty e Casa Paratiana
São Paulo

Foto: Lu Serra
“Eu nasci e vivi até a adolescência no Vale do Paraíba e, como uma boa paulista do interior, não poderia deixar de ter uma relação afetiva com as festas juninas e com o mais típico quitute de São José dos Campos: o bolinho caipira [feito com farinha de milho e recheado com carne moída]. Muito pequena já acompanhava minha mãe nas quermesses da igreja e, como ela era voluntária nas barracas de bolinho, eu desde cedo curtia a festa. O amor por esse quitute me fez colocá-lo no cardápio do Restaurante Casa Paratiana. Um sucesso entre os fãs do bolinho e também entre os que experimentam pela primeira vez.”
Victor Senna, Caco
Mato Grosso do Sul

Foto: Dani Neves
“Nasci em São Paulo, mas passei parte da infância em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Lá, tem uma mistura de culturas com influência de comunidades do Paraguai. Dois pratos de festa junina que me marcaram foram o arroz carreteiro e a sopa paraguaia. Uma amiga da minha família era do Paraguai e sempre trazia esse prato — que, apesar do nome, é uma espécie de torta de milho — quando nos visitava nessa época. Era uma delícia.”
Giovanna Grossi, Animus e A Casa da Esquina
Alagoas

Foto: Thays Bittar
“Passei a infância em Alagoas, e as festas juninas sempre foram sinônimo de areia e brasa. As comemorações aconteciam na casa de praia, com fogueira acesa na beira do mar, milho tostando direto no carvão e curau bem cremoso, com o fundo da panela ligeiramente queimado, que a gente chama de canjica. Tinha também pipoca, amendoim doce, tudo preparado de forma simples. Sempre tinha um forró e lembro muito da gente dançando descalça na areia… era isso que me dizia que junho tinha chegado.”
Marcelo Schambeck, Capincho Restaurante
Rio Grande do Sul

Foto: Roberta Gewehr
“Festa junina, pra mim, tem cheiro de pinhão cozido. As festas caem bem no frio gaúcho e sempre foram desculpa pra juntar gente em volta do fogo para se esquentar e comer bem. A memória afetiva que essa época me traz vem desse cheiro, que me leva direto pra infância.”
Kaywa Hilton, Boia Restaurante e Maré Praia do Forte
Bahia

Foto: Funway
“Para mim, a memória está relacionada aos amendoins cozidos, tradicionais aqui na Bahia. Todo mundo que tem sítio planta no final de março para colher e cozinhar nas festividades de São João. Acho que é algo bem único daqui.”
Ian Baiocchi, Grupo Íz
Goiás

Foto: Kirah van der Lemon
“O que mais me aproxima da festa junina, além da comida, é o clima que envolve essa época. Em Goiânia, ela acontece justamente no período mais frio do ano, o que naturalmente nos leva ao milho. É tempo de pamonha em todas as versões possíveis e também de uma das minhas preparações preferidas: a chica doida, uma sopa quente feita com milho verde, linguiça, bastante cebolinha e queijo. Mas o que mais me encanta é a vivência nas festas das comunidades. Adoro comprar a ficha e sair explorando as barraquinhas. Já tive a sorte de encontrar um espetinho de cupim ou de língua, são inesquecíveis. E ganhar um frango ou uma leitoa no bingo também tem seu valor simbólico, algo que deve acontecer somente no centro-oeste. Ah, e por mais que eu tente, ainda não consegui gostar de quentão. Mas sigo tentando… quem sabe um dia!”
Victor Branco, Osteria Taipa e Piastro Cucina
Santa Catarina

Foto: Peebor Agência Criativa
“Lembro das quermesses da escola, das cocadas e maria-mole, da pipoca, do pé de moleque e, claro, do pinhão, que sempre aparecia cozido ou sapecado direto na brasa. A paçoca de pinhão sempre esteve presente, ela é um costume forte por aqui. Hoje, virou prato no nosso restaurante, a Osteria Taipa, mas nasceu dessa tradição familiar de compartilhar comida e conversar perto da lenha acesa.”
Ana Gabi Costa, Trintaeum Restaurante
Minas Gerais

Foto: Izadora Delforge
“Para nós, mineiros, sempre foi muito simbólico realizar as celebrações juninas ao redor do milho, valorizando esse alimento que sempre nos sustentou. É por meio dele que temos a pamonha, o bolo de milho e a própria canjica – milho branco que cozinhamos com leite, conhecido como munguzá em outras regiões. Temperamos aqui em Minas quase sempre com amendoim e coco. Sempre adoçado. Esse, para mim, sempre foi o prato mais afetivo e representativo de que junho chegou e a festa junina também.”
Ariani Malouf, Mahalo Cozinha Criativa
Mato Grosso

Foto: Samuel Neto
“Aqui em Cuiabá, o queridinho das festas juninas é o quarteto cuiabano: Maria Isabel [arroz com carne seca], farofa de banana, revirado [carne picada, farinha de mandioca e ovos], e feijão empamonado [feijão cozido com ingredientes como bacon, linguiça calabresa, alho, cebola e farinha de mandioca]. Outra coisa que eu amo são os espetinhos com vinagrete e mandioca cozida.”
Por Beatriz Calais



