Alienígena Gastronômico: Restrições alimentares

Uma das maiores dificuldades que alguém com algum tipo de restrição alimentar encontra é o ato de comer fora de casa. Uma oportunidade de se socializar acaba sendo muitas vezes constrangedora. Muitos de nós ingerimos

Uma das maiores dificuldades que alguém com algum tipo de restrição alimentar encontra é o ato de comer fora de casa. Uma oportunidade de se socializar acaba sendo muitas vezes constrangedora. Muitos de nós ingerimos apenas uma saladinha de folhas, alguns acompanhamentos, ou, até mesmo, somente um café, quando poderíamos consumir como qualquer outro cliente.

 

Você já parou para notar que, na maioria dos menus, as saladas, os pratos principais, ou vêm com algum tipo de carne, ou com algum tipo de queijo ou os seus derivados? Cadê a criatividade? Onde se encaixariam aí a grande população que tem restrição à lactose por exemplo? E apopulação vegetariana ou vegana? Qual o potencial que não está sendo atendido?

 

Em uma cidade tão grande como é São Paulo, costumo comer sempre nos mesmos lugares ou em minha própria casa. Quando vejo um menu de saladas, se tirar as carnes e os queijos, crótons, sobram, às vezes, apenas umas folhinhas verdes. Os pratos principais são quase sempre à base de carnes ou queijos, e, as massas não são sem glúten. E fica nisso, apenas algumas folhas verdes e alguns tomatinhos. Quando dou sorte, como alguns acompanhamentos. E fico ali, olhando o menu e pensando de que modo poderia ser tão diferente: “se eles mudassem uma coisinha aqui e outra ali, já atenderiam a um vegano, a uma pessoa com alergia a ovos, a outra vegetariana, e a outros com alergia a glúten ou a leite e os derivados”.

 

Às vezes, uma pequena alteração no menu tornaria o restaurante mais eficiente, com a possiblilidade de atender à maior parte da população, porque o que uma pessoa com restrição alimentar come todos os outros comem, mas, o inverso, não é verdadeiro.

 

Imagino um menu inclusivo, inteligente, em que praticamente todos poderiam ser atendidos em proporções similares. Opções de saladas elaboradas com grãos, cogumelos ou sementes nas quais se encontrariam as proteínas vegetais. Risotos vegetais ou não-vegetais, mas preparados como de fato devem ser, com o próprio amido do arroz, e não com queijos ou creme de leite, e massas sem glúten…

 

Digo, pelo menos uma massa sem glúten já agradaria muitos. E não é porque temos restrições alimentares que os nossos pratos devem ser menos saborosos e menos elaborados. Não vem com essa (aliás, desculpa bem comum) de que, se tirar os queijos, vai ficar sem sabor, que pratos sem carne não têm sabor de nada… por tantas vezes como algo tão sem gosto e sem qualquer criatividade que me espanta ainda ser cobrado o mesmo preço de qualquer outro prato elaborado.

 

Por quantas vezes eu mesmo já sugeri pegar algo de um prato e algo de outro e, assim, fazerem um outro prato! Nem sempre aceitam, e dizem que não podem mudar pois comprometerão a textura e o sabor. Oi? Quem é o cliente? Forçar-me a comer algo que não gosto ou que me fará mal é comprometer o próprio restaurante, capisce!?

 

Acredito que realmente cozinhar para pessoas com restrições alimentares é para poucos. Tirar os ingredientes-chaves para alguns chefs e, ainda assim, fazer um prato maravilhoso, isso, sim, é talento! E são ainda poucos os que topam esse desafio com afinco. Não passo essa situação apenas em restaurante…

 

Também em minhas viagens, quando vou escolher a minha alimentação, ou há opção sem glúten, ou sem lácteos, ou vegana, ou vegetariana, mas e se alguém é vegetariano e não come glúten? Ou se tem alergia a glúten e a lácteos, algo tão comum hoje em dia? Ou se é vegano e não come glúten? Então, todos esses ficam sem comer?

 

Como falei, basta prestar atenção com mais carinho a essas opções e encontrará solu-ções para todos. Aliás, a experiência com a companhia aérea nunca será boa se ficar sem comer, não é mesmo? Não quero me sentir um alienígena gastronômico quando saio para me socializar. Quero poder ter escolhas gostosas, saudáveis; quero compartilhar o momento com os amigos e a família, me lambuzando, também, comendo com prazer, por completo. Em um momento de crise que estamos vivendo, e, mais uma vez na história da humanidade, não são os mais fortes que sobreviverão, mas, sim, os mais adaptáveis.

 

Ofereça opções que possam comungar a todos e não excluir muitos. Respeite as particularidades de cada um, as decisões ou as restrições alimentares. Reveja seus conceitos.

 

Saúde por Marcelo Facini Consultor em Gastronomia Funcional  | Matéria publicada na edição 87 da Revista Versatille