Catalunha quer menos turistas — e mais brasileiros
Destino adota estratégia para reduzir a pressão do turismo de massa, distribuir visitantes pelo território e aumentar o gasto por viajante; em 2025, brasileiros deixaram 500 milhões de euros na região

Por Celso Masson
Receber cada vez mais turistas deixou de ser uma meta para a Catalunha. Um dos destinos mais procurados da Europa — e também um dos que mais sentiram os efeitos do turismo de massa — decidiu mudar a equação: em vez de perseguir recordes de visitantes, quer aumentar o valor gerado por cada viagem e distribuir melhor seus benefícios pelo território e pela população local.
A estratégia foi apresentada em São Paulo pela Agência Catalã de Turismo (ACT), durante missão comercial voltada ao mercado brasileiro. Batizado de Catalunya, millor turisme (Catalunha, melhor turismo), o plano estabelece as diretrizes do setor até 2030 e se apoia em oito eixos, entre eles descentralização, redução da sazonalidade, sustentabilidade e fidelização dos visitantes.
A mudança ganha relevância especialmente por envolver Barcelona, que se tornou um dos símbolos europeus do debate sobre overtourism. A intenção agora é estimular viagens que avancem para além da capital e levem visitantes — e receita — a outras regiões da Catalunha, em diferentes épocas do ano.
Até a taxa turística passa a ter papel mais amplo nesse modelo. Parte dos recursos arrecadados, antes associados sobretudo à promoção do destino, pode financiar iniciativas que beneficiam também os moradores, como eventos culturais, climatização de escolas e melhorias no transporte público.
Por que o Brasil interessa
Os números ajudam a explicar a atenção dedicada ao mercado brasileiro. Em 2025, 211.300 brasileiros visitaram a Catalunha e gastaram 500 milhões de euros, valor 43% superior ao registrado no ano anterior. O gasto médio informado pela ACT chegou a 2.111 euros por pessoa, alta de 46%. É justamente esse perfil de visitante — disposto a permanecer, consumir e explorar experiências de maior valor — que a Catalunha pretende estimular.
“O Brasil é um dos mercados prioritários da Catalunha na América do Sul. Buscamos um visitante que entenda as regras do destino e queira fazer parte de um turismo que também beneficia quem mora aqui, vivenciando experiências únicas por todo o nosso território”, afirma Arantxa Calvera Cosculluela, diretora global da Agência Catalã de Turismo.

Cadaques, a charmosa cidade litorânea que foi refúgio de Salvador Dalí (divulgação)
A conectividade ajuda. Há voos diretos entre São Paulo e Barcelona, com frequências que podem chegar a sete por semana em determinados períodos do ano. A diferença entre as estações nos dois hemisférios também interessa à estratégia catalã: brasileiros viajando entre dezembro e fevereiro podem contribuir para reduzir a concentração de visitantes nos meses mais disputados do verão europeu.
Muito além de Barcelona
Para espalhar melhor esse fluxo, a Catalunha quer ampliar no Brasil o conhecimento de destinos como Costa Brava, Costa Dourada e Pirineus, além de experiências ligadas à gastronomia, ao vinho, à cultura, à natureza, à neve e ao cicloturismo.
O enoturismo é um dos exemplos. A região possui 12 rotas consolidadas, entre elas Penedès, a cerca de 45 minutos de Barcelona; Priorat, reconhecido internacionalmente por seus vinhos; Empordà, que combina litoral, gastronomia e a herança de Salvador Dalí (também presente na charmosa Cadaques); e Costers del Segre, em direção aos Pirineus.
Com cerca de 8 milhões de habitantes, 32 mil km² e 580 quilômetros de litoral mediterrâneo, a Catalunha reúne realidades muito distintas entre suas quatro províncias — Barcelona, Girona, Lleida e Tarragona. Fazer com que uma parcela maior dos visitantes conheça esse território é agora parte central de sua política turística.
A mensagem apresentada em São Paulo representa uma mudança significativa de parâmetro: o sucesso de um destino não precisa mais ser medido apenas pelo número de pessoas que consegue atrair, mas pelo valor econômico que elas geram, pela maneira como se distribuem e pelo impacto que deixam para quem vive ali.
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