Harry Kirton fala sobre o novo bem-estar masculino e era das neurofragâncias
Harry Kirton, de Peaky Blinders, fala à Versatille sobre bem-estar masculino, neurofragrâncias, autocuidado, saúde mental e novas formas de masculinidade.

Por Karina Hollo
Harry Kirton, ator britânico conhecido por seu papel na série Peaky Blinders, é também consultor criativo da marca brasileira de cosméticos QOD. Ele falou à Versatille sobre o atual momento de transformação do bem-estar masculino a partir da relação entre olfato, cérebro e emoções.
Por muito tempo, o mercado de grooming masculino esteve associado à aparência. Produtos para barba, cabelo e fragrâncias eram vendidos como ferramentas de imagem, sedução ou sucesso profissional. Agora, uma transformação começa a ganhar espaço: a ideia de que o autocuidado não deve influenciar apenas como o homem é visto, mas também como ele se sente.
No centro dessa mudança estão as neurofragrâncias, formulações desenvolvidas a partir de estudos sobre a relação entre olfato, cérebro e emoções. Mais do que perfumar, elas buscam estimular estados mentais como foco, relaxamento, presença e equilíbrio emocional, acompanhando o crescimento de um novo segmento da economia do bem-estar: o chamado “mercado da pausa”.
Para o ator britânico Harry Kirton, conhecido mundialmente por seu trabalho na série Peaky Blinders e consultor criativo da brasileira QOD, criada por Fernando Hillal, essa transformação ganhou força quando o grooming deixou de ser associado apenas à aparência e começou a ser entendido como uma ferramenta de presença e equilíbrio. “Hoje, muitos homens não buscam somente parecer bem, mas se sentir melhor consigo mesmos”, afirma.
A mudança acompanha uma revisão dos próprios conceitos de masculinidade. Se gerações anteriores foram educadas para associar o universo masculino ao autocontrole emocional e à resistência, os consumidores mais jovens demonstram maior abertura para temas como saúde mental, vulnerabilidade e bem-estar.
“Existe claramente uma nova masculinidade em formação”, diz Kirton. “Os homens estão mais interessados em produtos que entreguem experiência, saúde e autenticidade, sem a necessidade de reforçar estereótipos antigos. Hoje, falar sobre skincare, saúde mental, descanso ou equilíbrio já não é visto como incompatível com masculinidade.”
As neurofragrâncias surgem como uma evolução natural do setor. Diferentemente dos perfumes tradicionais, cuja função principal é construir uma assinatura olfativa, elas exploram a conexão direta entre o sistema olfativo e o sistema límbico, região cerebral ligada às emoções e à memória. Determinados aromas podem influenciar sensações de conforto, níveis de atenção e estados de humor.
Para Kirton, o produto precisa gerar experiência, sensação e conexão emocional. “A ideia de transformar um hábito em um momento capaz de estimular foco, presença ou relaxamento aproxima o autocuidado masculino de um ritual mais consciente e sofisticado.”
O fenômeno também dialoga com uma necessidade crescente de desaceleração. Em um cotidiano marcado por notificações, excesso de informação e produtividade constante, pequenos momentos de reconexão passaram a ser valorizados. Experiências que oferecem alguns minutos de atenção plena em meio à rotina acelerada.
“A pausa não precisa significar parar completamente”, diz Kirton. “Ela pode existir em pequenos rituais diários. O homem contemporâneo vive em estado constante de estímulo e produtividade, então momentos curtos de reconexão já fazem diferença.”

Cultura pop
Se antes as fragrâncias masculinas eram frequentemente construídas sobre arquétipos rígidos de poder e sedução, hoje elas dialogam com estados emocionais mais complexos. A cultura pop também exerce influência nesse processo, por funcionar como “espelho aspiracional”, nas palavras de Kirton.
“Moda, música, cinema e redes sociais influenciam diretamente como os homens constroem identidade, comportamento e até hábitos de autocuidado.”
O futuro desse mercado parece apontar para uma integração cada vez maior entre ciência, sustentabilidade e bem-estar.
“Hoje, origem importa tanto quanto performance”, afirma o ator. “O consumidor global quer saber de onde vêm os ingredientes, como são produzidos e qual impacto geram. Quando sustentabilidade e inovação caminham juntas de forma verdadeira, isso cria conexão real.”
Trata-se de transformar gestos cotidianos em experiências capazes de favorecer presença, clareza mental e equilíbrio emocional. Como resume Kirton: “O homem de hoje quer performar bem, mas entende que isso depende também de equilíbrio emocional, descanso e clareza mental. O futuro do bem-estar masculino será justamente essa integração entre performance e presença – produtos e experiências que ajudem as pessoas a produzir melhor, mas também a viver melhor.”
- Matéria publicada na Revista Versatille 142, disponível para download gratuito
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