Ricardo Almeida: o maestro da alfaiataria
Ricardo Almeida rege um império que cruza gerações. Unindo a elegância da tradição familiar ao espírito jovem do design que caracteriza a marca RA2

Por Karina
Ricardo Almeida rege um império que cruza gerações. Unindo a elegância da tradição familiar ao espírito jovem do design que caracteriza a marca RA2, o estilista que adora trabalhar ouvindo música em alto volume agora expande seu olhar visionário para além das passarelas, alcançando a hotelaria de luxo e até um projeto de conservação de animais silvestres.
A batida que dita o ritmo de um dos maiores impérios da moda e do luxo no Brasil não vem das passarelas de Paris ou das tradicionais ruas de Milão, mas sim das caixas de som inglesas de alta fidelidade que ecoam no estúdio de Ricardo Almeida. Quem entra no ateliê de 700 m² ocupados pela marca no Complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo, logo percebe que a atmosfera é regida pela música. Entre batidas eletrônicas contemporâneas e clássicos do rock, o estilista, com mais de 40 anos de uma carreira sólida na moda brasileira, encontra a frequência exata para criar. Para ele, a música e a moda operam sob a mesma lógica: ambas necessitam de estrutura, harmonia e, acima de tudo, ritmo.
“Sempre gostei e sempre ouvi muita música. Tenho uma coleção enorme guardada no meu celular e realmente curto bastante. Realmente gosto muito da Void, marca inglesa excelente, voltada para músicas mais altas, estilo balada ou festa. Essa minha paixão vem desde pequeno. Um dos primeiros dinheiros que ganhei na vida usei para comprar, uma vitrola. Eu devia ter uns 10 anos e a usava para ouvir discos de vinil dos Beatles. Isso foi em 1966.”
Essa sensibilidade auditiva e estética foi o começo de uma trajetória que revolucionou o guarda-roupa do homem brasileiro. Ricardo Almeida não apenas aprendeu a desenhar roupas; ele aprendeu a sintonizar os desejos de uma elite que buscava identidade, sofisticação e caimento impecável.
Olhar para o panorama da moda brasileira é, deparar-se com o divisor de águas estabelecido pelo estilista. Antes de sua consolidação, o conceito de alfaiataria no país era frequentemente associado a algo rígido, pesado e sem o refinamento internacional. A virada de chave que transformou seu nome próprio em uma grife de desejo e sinônimo de status ocorreu quando ele decidiu que o mercado nacional merecia o mesmo padrão técnico oferecido pelas grandes casas de moda globais. “Acredito que o início da nossa consolidação foi quando conseguimos trazer os tecidos importados para o Brasil, os tops de linha lá de fora, e montar as nossas lojas no Iguatemi e Morumbi. Com isso, a gente pôde mostrar um trabalho diferente do que existia aqui no Brasil.”
Ao introduzir matérias-primas nobres e propor uma modelagem que valorizava a silhueta de forma anatômica e confortável, Ricardo estabeleceu um novo padrão. A marca se tornou um código de elegância indissociável de grandes empresários, políticos, atores e personalidades que buscavam expressar poder e refinamento por meio de um terno perfeitamente alinhado.
Porém, manter-se no topo por quatro décadas exige mais do que consistência; exige a capacidade de se reinventar sem perder a essência. Nos movimentos mais recentes da moda, nos quais as fronteiras de gênero se diluem e silhuetas oversized com ganchos baixos de inspiração oriental ganham força, Ricardo Almeida demonstra sua maestria ao orquestrar diferentes linguagens sob o mesmo teto corporativo. A resposta para o dinamismo atual da passarela reside na divisão estratégica e complementar de suas linhas de criação.

Em sentido horário: Ricardo ao lado de Gisele Bündchen com terno risca de giz; entre Ney Latorraca, Milton Nascimento. Raul Cortez; em um desfile da SPFW e ao lado de Fernando Moraes
“A marca Ricardo Almeida se consolidou e ainda transita mais na linha de alfaiataria clássica. Já a RA2 trabalha mais com peças modernas, avant garde, que tem gancho baixo, mais oversized. Esta linha é feita pelos meus filhos e está dentro do Grupo Ricardo Almeida. Então, quando fazemos os desfiles precisamos apresentar as três linhas, masculino, feminino e RA2, e trazer uma ideia mais fashion para passarela, então misturamos RA2 com Ricardo Almeida, com feminino, criamos um styling diferente para o desfile, assim não trazemos somente o tradicional para passarela.”
Essa composição polifônica permite que a grife dialogue simultaneamente com o executivo que necessita de um costume impecável para o dia a dia e com o jovem antenado nas últimas tendências do streetwear de luxo. A passarela torna-se, assim, um laboratório vivo onde o clássico e o disruptivo convergem de maneira harmônica. Quem acompanha a evolução física da marca percebeu uma mudança cromática profunda. O tradicional preto e branco deu lugar a uma identidade visual sofisticada, envelopada pelo cinza “pirita” e por detalhes em laranja vibrante. Essa transição, longe de ser apenas uma escolha estética superficial, reflete a maturidade de uma marca que sabe exatamente quem é e para onde está caminhando. O novo logotipo carrega os fundamentos que guiam a agulha e a tesoura de Ricardo.
“Na realidade, não foi só a paleta de cores. Quando montamos o estúdio aqui na Cidade Matarazzo, resolvemos repaginar o logo e trabalhar com uma cor que ilustrasse este novo momento da marca. A cor laranja é o detalhe; o que aparece mais é o pirita, que é um dourado envelhecido, com uma representação dos oito pilares da marca: compromisso inegociável com a qualidade; olhar que transforma pessoas; identidade atemporal; passado como impulso; vanguardismo como propósito; exclusividade na medida; não é sobre status, é sobre essência e criamos arte em forma de roupa.”
Um dos movimentos mais bonitos e estratégicos da história recente do Grupo Ricardo Almeida é a introdução da linha RA2. Sob a liderança criativa de seus filhos mais novos, Arthur e Ricardinho Almeida, em parceria com Gabriel Pascolato (sobrinho de Costanza Pascolato), a grife caçula oxigena o DNA da marca mãe. Atuando como um verdadeiro mentor, Ricardo oferece a segurança técnica de sua estrutura fabril para que a juventude experimente sem medos.
“Acho muito importante eles estarem junto comigo aqui na marca, porque é o único jeito de criarmos sucessão. Eles, à frente da RA2, estão fazendo uma linha mais de vanguarda, mais conceitual, não se preocupando tanto com o volume de vendas, mas sim com a criatividade. Isso faz com que eles tragam ideias novas, e isso é muito bom. Com isso, eles também aprendem como funciona a empresa e, no dia em que eu preferir focar nos hotéis e nos projetos de wellness, eles poderão tomar a frente da nossa linha de vestuário.” Essa simbiose geracional garante que o legado de excelência em modelagem da família Almeida continue vivo e relevante para as próximas décadas, pavimentando um caminho natural de transição e longevidade corporativa.
Enquanto a RA2 assume os contornos da experimentação urbana e do potencial global, Ricardo mantém um espaço sagrado e íntimo reservado para as mulheres: a linha feminina sob medida, conduzida de maneira artesanal e exclusiva dentro de seu estúdio no Complexo Matarazzo. “A marca Ricardo Almeida é a nossa marca mãe. A linha feminina eu trabalho sob medida e por um hobby meu, por eu gostar de fazer coisas diferentes para o público feminino. Mas ela não é o meu carro-chefe, por isso quero mantê-la só aqui dentro do meu estúdio na Cidade Matarazzo. Faço isso até para ter o domínio do que está sendo feito e de como está sendo feito; é uma vontade minha, não quero abrir para o mercado ou para muita gente, afirma. E a RA2? “É uma linha para a qual a gente dá uma superatenção, porque realmente meus filhos são as pessoas mais indicadas para me suceder dentro da marca. Lógico que temos parceiros lá fora que vão nos ajudar em outras coisas, mas a RA2, ao meu modo de ver, tem muito potencial para internacionalização.”
A experiência física no mercado de luxo
A era da digitalização transformou radicalmente os hábitos de consumo, mas o mercado de altíssimo padrão guarda particularidades que a tela de um smartphone jamais conseguirá replicar. O caimento de um terno de alta-costura exige o olho clínico do alfaiate, o ajuste milimétrico e a percepção sensorial do toque da lã ou da seda. Ao promover o retrofit de suas mais de 20 lojas pelo país, baseando-se no conceito de concept store, Ricardo foca na segurança que apenas o olho no olho pode proporcionar. “Eu acho que o principal diferencial dentro da nossa marca é, primeiro, sempre preservar a qualidade, não só dos tecidos, como das modelagens. Segundo, o atendimento, oferecemos uma orientação do que fica melhor para o biotipo de cada cliente, não é apenas vender e valorizar o cliente, dando segurança e confiança.”
A omnicanalidade funciona de forma integrada, compreendendo que certos itens se adaptam perfeitamente à reposição on-line, enquanto a alfaiataria estruturada exige o calor do atendimento presencial. “No digital, você nunca vai conseguir mostrar realmente o produto, o acabamento ou o toque do tecido. Por isso, acredito que o cliente de luxo só consome no online depois que já conhece e sabe o que quer comprar da marca. No caso de uma camiseta, por exemplo, se ele já viu, tocou, vestiu e aprovou o caimento, a reposição pode ser feita pelo digital de forma supertranquila. Já um terno é mais difícil comprar on-line”, diz. Por quê? “É preciso fazer a barra da calça, ajustar o comprimento da manga, soltar ou apertar a estrutura, quando o cliente compra este produto online ele vai até a loja depois para fazer os ajustes necessários, e nós oferecemos este serviço sem custo. A alfaiataria clássica, costumes e ternos, é o ponto mais forte da nossa marca, então o cliente acaba optando pelo atendimento presencial.”

(foto divulgação) Estilista Ricardo Almeida RA2, a linha masculina, a linha feminina sob medida e a mais nova empreitada: os hotéis
O lifestyle Ricardo Almeida e a hotelaria
Para Ricardo, o conceito de vestir alguém extrapolou para o ato de acolher essa pessoa em um universo completo de experiências. O futuro da marca aponta para a hotelaria e para o segmento de wellness, transportando o mesmo rigor, exclusividade e discrição de seus cortes para o design de ambientes e a hospitalidade premium. “Não nos preocupamos em ter um monte de lojas. Queremos oferecer exclusividade, sermos mais fechados mesmo. Em vez disso, estamos expandindo o estilo de vida da marca. Daí vem a casa wellness, que hoje é o assunto que as pessoas mais têm falado. Estamos fazendo um spa interno para apenas 40 casais, que serão os sócios-fundadores, super, super fechado. E aqueles que quiserem frequentar, além desses 40, só poderão ir após enviar uma ficha e serem aceitos. E o hotel, que também terá um condomínio, segue a mesma ideia, como se fosse um clube, onde todos se conhecem e conseguem se relacionar. Vai ser uma grande mudança no conceito de hospedagem e hospitalidade no Brasil.”
Sustentabilidade e conservação em Alagoas
Se na juventude o som dos Beatles movia suas primeiras ambições, hoje a mente criativa de Ricardo é impulsionada pelo desejo de deixar um legado de preservação ambiental. Seu projeto mais ambicioso une a sofisticação de um hotel de praia com a regeneração da fauna e flora nativas em Alagoas. “Dentro dessa minha atuação na hotelaria, também estamos montando um projeto ambiental: um mantenedor de animais silvestres, focado em recuperar animais que tenham passado por algum problema para depois devolvê-los à natureza. Junto a isso, queremos construir estufas de plantas que estão em extinção para conseguirmos reproduzi-las e repovoar o meio ambiente. A ideia é criar uma fazenda totalmente sustentável, praticamente “’pé na areia’. Esse projeto será em Alagoas, com tudo integrado: um ao lado do meu hotel de praia, outro próximo ao hotel que tenho no alto do morro, e a fazenda localizada um pouco mais atrás dessa mesma praia. É o projeto que hoje mais quero abraçar.”
- Matéria publicada na Revista Versatille 142, disponível para download gratuito
