Casa Real 2023 mostra a força do Cabernet Sauvignon de Alto Jahuel
Apresentada em São Paulo ao lado das duas safras anteriores, nova edição do vinho ícone da Santa Rita chega ao mercado com algumas das maiores notas da crítica internacional

Por Celso Masson
Uma safra quente, maturação mais rápida e uma colheita que precisou ser antecipada poderiam resultar em um Cabernet Sauvignon marcado sobretudo pela concentração. O Casa Real 2023 segue outro caminho. Intensidade não lhe falta, mas são o frescor, a precisão e a qualidade dos taninos que ajudam a explicar por que a nova safra do vinho ícone da chilena Santa Rita chegou ao mercado cercada de avaliações importantes da crítica internacional.
O vinho foi apresentado na semana passada em São Paulo, durante jantar no hotel Emiliano acompanhado pela Versatille. A safra 2023 foi servida ao lado das duas anteriores, permitindo observar não apenas as diferenças entre elas, mas a identidade que atravessa as três edições de um Cabernet Sauvignon produzido em um único vinhedo de Alto Jahuel, no Vale do Alto Maipo.
A sequência começou pelo Casa Real 2022, servido com carne cruda, e prosseguiu com o 2023. A safra 2021 acompanhou a sobremesa, uma torta de chocolate 70% com amêndoas e redução de frutas vermelhas. Queijos artesanais paulistas — Mandala, Coração da Serra e Tulha — completaram a degustação.
De Alto Jahuel para o mundo
A história do Casa Real começou bem antes da primeira garrafa. A Viña Santa Rita foi fundada em 1880 por Domingo Fernández Concha em Alto Jahuel e, exatamente um século depois, passou a fazer parte do Grupo Claro, liderado pelo empresário Ricardo Claro Valdés.
Segundo Baltazár Sánchez, presidente do conselho de administração da Santa Rita, a busca que levaria ao Casa Real começou em 1984, com a seleção dos melhores Cabernet Sauvignon dos vinhedos da propriedade. No ano seguinte, a equipe passou a selecionar as melhores uvas de parcelas específicas de Alto Jahuel com um objetivo mais ambicioso.
“O desafio era criar um vinho capaz de expressar todo o potencial do Cabernet Sauvignon de Alto Jahuel e colocá-lo em nível internacional”, afirmou Sánchez durante o jantar. “Naquela época, as vinícolas chilenas estavam, de maneira geral, voltadas para o crescimento. Nós apostamos no reconhecimento por produzir vinhos de alta qualidade.”
O projeto desembocou na primeira safra do Casa Real, em 1989, lançada comercialmente em 1991. O vinho provém de vinhedos históricos plantados nas décadas de 1970 e 1980 aos pés da Cordilheira dos Andes. Aquela edição inaugural acabaria se tornando um marco. Em 2013, o Casa Real Reserva Especial 1989 foi incluído pela revista britânica Decanter em sua série Wine Legends, tornando-se o primeiro vinho sul-americano a receber a distinção. “De certa maneira, esse reconhecimento nos leva de volta ao ponto em que a história começou: a convicção de que Alto Jahuel tinha potencial para produzir um Cabernet Sauvignon capaz de estar entre os grandes vinhos do mundo”, disse Sánchez.
O Casa Real nasce de uma área de 20 hectares formada por antigos solos aluviais. As brisas frescas que descem da Cordilheira dos Andes ajudam a moderar as temperaturas durante o dia e favorecem a preservação da acidez das uvas durante a maturação. Para a edição 2023, elas vieram dos setores Carneros Viejo e Población. As parcelas são formadas por Cabernet Sauvignon proveniente de seleção massal, com videiras não enxertadas. A produção foi dividida em oito blocos e 25 microlotes, trabalhados separadamente. “Cada vindima é uma nova interpretação deste lugar. A safra 2023 nos levou a trabalhar com uma precisão extraordinária, refinando decisões em prazos muito curtos para manter intacta a identidade de Casa Real”, explica o enólogo Sebastián Labbé.

Sebastián Labbé, enólogo da Santa Rita (divulgação)
Depois da colheita manual, as uvas passaram por dupla seleção. Durante a fermentação, as remontagens foram mais vigorosas no início e progressivamente mais suaves no final. Após a fermentação, o vinho foi transferido por gravidade e permaneceu 18 meses em barricas de carvalho francês — 70% novas e 30% de segundo uso. Tem 13,7% de álcool. Na taça, o 2023 apresenta cassis, cereja madura e frutas negras, acompanhados por especiarias, grafite e discretas notas herbais. Em boca, a estrutura e a concentração são equilibradas pela acidez, com taninos finos e um final longo e de caráter mineral. Provado ao lado de 2021 e 2022, mostra diferenças próprias da safra quente sem perder o perfil que identifica o Casa Real.
Reconhecimento
Antes mesmo de seu lançamento, o Casa Real 2023 recebeu 98 pontos de Virginie Boone na plataforma de Jeb Dunnuck, a maior pontuação do Chile Report 2026. A Vinous atribuiu 97 pontos, segunda maior nota de seu relatório, enquanto Tim Atkin MW e Amanda Barnes MW também lhe deram 97 pontos e o incluíram entre os Wines of the Year. No Descorchados 2026, recebeu 98 pontos e entrou no grupo dos dez melhores tintos do ano.
O percurso internacional do Casa Real ganhou uma nova dimensão em 2021, quando a safra 2018 ingressou na La Place de Bordeaux, a tradicional rede de négociants que distribui grandes vinhos de Bordeaux e, mais recentemente, uma seleção de rótulos de outras regiões do mundo.

Ilustração com a garrafa de Casa Real. A vinícola Santa Rita já foi eleita a número 1 do mundo pela Forbes (divulgação)
Para Sánchez, porém, as distinções são consequência de uma continuidade que começa no vinhedo. Em mais de três décadas de Casa Real, apenas três enólogos estiveram à frente de sua elaboração. Sebastián Labbé, atual responsável pelo vinho, representa a geração mais recente. “Mudaram as safras, as condições climáticas e também a maneira como trabalhamos, mas há algo que permaneceu: a identidade de Casa Real”, afirmou Sánchez.
É justamente a comparação entre 2021, 2022 e 2023 que ajuda a entender essa afirmação. São três interpretações distintas de um mesmo vinhedo — e três vinhos que preservam, apesar das diferenças de cada ano, a assinatura de Alto Jahuel.
Leia mais:
- La Grande Dame Rosé 2018 traduz o espírito de Veuve Clicquot
- Restaurantes transformam vinhos de marca própria em extensão de suas cozinhas
