Lotus: Das pistas para sua garagem

Famosa pelos carros de Fórmula 1 pilotados por Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna, a Lotus chega ao Brasil com portfólio completo de modelos, operação turbinada pela JHSF e atrativos que unem luxo e esportividade a

lotus
Foto Divulgação

Por André Sollitto

 

Um dilúvio caiu sobre Estoril no dia 21 de abril de 1985. Ayrton Senna (1960-1994) havia conquistado sua primeira pole position no Grande Prêmio de Portugal no dia anterior, sob um céu claro. A água na pista, no dia da corrida, não atrapalhou o piloto brasileiro. Pelo contrário. Senna mostrou sua habilidade e fez uma prova absolutamente segura.

  

Enquanto seus rivais sofriam com problemas mecânicos e derrapavam no asfalto molhado, Senna, ao volante da Lotus 97T pintada em preto e dourado, abriu vantagem. “As condições eram péssimas, eu não conseguia enxergar nada à minha frente”, disse, na época, o jovem piloto que se tornaria tricampeão mundial.

  

Senna liderou as 67 voltas e conseguiu um feito histórico: recebeu a bandeirada com ao menos uma volta de vantagem sobre todos os outros carros que completaram a prova, exceto o segundo colocado, Michele Alboreto (1956-2001). A vitória não apenas confirmou o talento do brasileiro como ajudou a colocar a marca de origem britânica entre as mais importantes no cenário automobilístico.

  

Agora, a Lotus chega ao Brasil em nova fase, com veículos esportivos premium eletrificados e a combustão.

  

Fundada em 1952 em Hethel, na região de Norfolk, na Inglaterra, pelo engenheiro Colin Chapman (1928-1982), a fabricante sempre esteve ligada ao esporte. Desde meados da década de 1960, o Team Lotus participou da Fórmula 1.

  

Grandes nomes do automobilismo estiveram ao volante dos carros projetados por Chapman, como os britânicos Stirling Moss (1929-2020) e Jim Clark (1936-1968), que venceu o primeiro campeonato com a equipe. No início dos anos 1970, Emerson Fittipaldi competiu pela Lotus e se tornou o mais jovem e o primeiro brasileiro a conquistar um campeonato mundial de Fórmula 1.

  

Detalhes do hipercarro elétrico Evija

Detalhes do hipercarro elétrico Evija


  

O lendário Lotus 72 era tão rápido que deu à escuderia três títulos de construtores e dois de pilotos (o alemão Jochen Rindt venceu em 1970).

  

A glória daqueles tempos durou pouco. A marca passou por dificuldades financeiras até ser vendida para a GM. Passou por outros donos, como o empresário italiano Romano Artioli (então dono da Bugatti) e pela Proton, da Malásia. Desde 2017, faz parte do grupo chinês Geely, que também é dono das marcas Volvo, Smart, Polestar e da própria Proton.

  

A operação no Brasil, no entanto, acontece de forma totalmente independente ao trabalho que a chinesa Geely faz por aqui. O responsável pela Lotus no Brasil é Clemente Faria Junior, ex-piloto que tem experiência com o mercado de luxo por sua atuação à frente do Grupo Bamaq, que trabalha com marcas como Porsche e Mercedes-Benz.

  

Inicialmente, a Lotus chega com duas concessionárias em São Paulo. A principal será no Complexo Cidade Jardim, enquanto outra, menor, ficará no Boa Vista Village, ambas propriedades do grupo JHSF, com a qual a marca criou uma parceria para uma série de iniciativas em ativos selecionados do grupo.

  

De acordo com Faria Junior, a operação será totalmente verticalizada, ou seja, as unidades serão da LTS Brasil, e não franquias. A decisão, segundo ele, visa garantir um atendimento padronizado para os clientes. Já estão no radar lojas em Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Florianópolis e no Distrito Federal.

  

Todo o portfólio atual será lançado no Brasil, começando pelo Eletre, SUV totalmente elétrico que entrega entre 603 cv e mais de 900 cv de potência na versão topo de linha. Em seguida, virá o Emira, esportivo equipado com um motor V6 turbo de 3.5 litros e câmbio manual de seis velocidades. Ambos desembarcam por aqui ainda em 2026.

  

No ano que vem, a previsão é trazer também o Emeya, um Hyper GT 100% elétrico de 908 cv de potência, capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 2,78 segundos e cuja velocidade máxima alcança 256 km/h.

  

O grande trunfo, no entanto, é o Evija (lê-se “Evaia”), hipercarro elétrico de mais de 2000 cavalos de potência que vai de 0 a 300 km/h em 9,1 segundos, com velocidade limitada eletronicamente a 350 km/h. Trata-se de um modelo exclusivo, com apenas 130 unidades produzidas. Uma delas está em negociação para chegar ao Brasil e será o carro mais caro do país, avaliado entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões.

  

O SUV Eletre é o primeiro lançamento da Lotus no Brasil. Com até 900 cv de potência, é um dos modelos do portfólio da marca de origem britânica.

O SUV Eletre é o primeiro lançamento da Lotus no Brasil. Com até 900 cv de potência, é um dos modelos do portfólio da marca de origem britânica.


 

De acordo com Clemente Faria Junior, o plano é expandir a operação para incluir diversas experiências com clientes com forte apelo de estilo de vida. É nesse contexto que entra a parceria com a JHSF.

  

Mas há outras iniciativas previstas, como track days, como são chamados os eventos em autódromos em que os veículos podem ser usados na pista, mostrando todo o seu potencial, visitas à fábrica na Inglaterra e viagens internacionais para acompanhar algumas das corridas internacionais em que os carros da Lotus competem.

  

Os clientes também vão poder customizar os carros de acordo com suas especificações, alterando diversos detalhes estéticos, dentro do programa Chapman Bespoke. Para além da exclusividade de um carro esportivo, a marca quer mostrar que quem tem um Lotus na garagem passa a fazer parte de um lifestyle ligado a uma rica herança de performance e conquistas.

  

O alto investimento da marca no Brasil representa o potencial que os executivos enxergam no mercado. “Do ponto de vista de negócios, faz muito sentido, porque além do grande volume de veículos, o brasileiro já está acostumado com modelos híbridos e elétricos”, afirma Max Trantini, CEO da Lotus Américas.

  

“Mais do que isso, o aspecto ligado ao estilo de vida faz diferença no Brasil, e acreditamos que com o nosso DNA e o nosso legado podemos atender às demandas e necessidades do público de alto poder aquisitivo”, completa.

 
 
Manter a rica história ligada às pistas é uma vantagem competitiva. Por isso, embora a Geely seja a principal acionista da marca, a Lotus mantém independência. O grupo chinês contribui com tecnologias e ajuda na expansão global, mas o desenvolvimento de produto é feito internamente pelos engenheiros e designers da Lotus.

  

Isso permite que a marca continue produzindo tanto carros com motores a combustão quanto híbridos e elétricos. “Não podemos negar os benefícios que a eletrificação traz, nem podemos nos limitar a uma ou outra tecnologia específica”, afirma Trantini. “Mas queremos criar uma experiência de direção consistente com o DNA da Lotus”.

 

O esportivo Emira mostra que a Lotus não abandonou os motores a combustão. O modelo é equipado com um V6 de 3.5 litros e câmbio manual de seis velocidades

O esportivo Emira mostra que a Lotus não abandonou os motores a combustão. O modelo é equipado com um V6 de 3.5 litros e câmbio manual de seis velocidades