Três gerações da Mitsubishi se encontram no Sertões 2026

De uma L200 Evolution bicampeã há mais de duas décadas a um protótipo de 430 cv, equipe de Guiga Spinelli transforma o maior rally raid do Brasil em uma linha do tempo sobre rodas

Primeiro e único protótipo brasileiro desenvolvido para a categoria Ultimate, a T1+ da FIA, o carro nasceu da parceria entre Mitsubishi Motors e Spinelli Racing (divulgação)
Primeiro e único protótipo brasileiro desenvolvido para a categoria Ultimate, a T1+ da FIA, o carro nasceu da parceria entre Mitsubishi Motors e Spinelli Racing (divulgação)

Por Celso Masson

 

Há diferentes maneiras de contar a evolução de um carro de competição. A Mitsubishi escolheu uma das mais interessantes para o Sertões Petrobras 2026: colocar três gerações de seus veículos de rally para enfrentar a mesma prova.

 

Entre 22 e 30 de agosto, a Mitsubishi Spinelli Racing disputará a competição com uma L200 Evolution de 2002, uma Triton Katana R derivada da picape de produção e a Triton Ultimate Racing, protótipo brasileiro concebido segundo as regras da principal categoria do rally raid mundial. O resultado será uma espécie de linha do tempo sobre rodas, capaz de mostrar quanto os carros — e o próprio esporte — mudaram em pouco mais de duas décadas.

 

Do Brasil para a elite do rally raid

 

No extremo mais avançado dessa história está a Triton Ultimate Racing. Desenvolvida pela Mitsubishi Motors em parceria com a Spinelli Racing e construída em Mogi Guaçu, no interior paulista, ela é o primeiro protótipo brasileiro criado para a categoria Ultimate.

 

Sob a carroceria de fibra de carbono e Kevlar está um chassi tubular de aço cromo-molibdênio. O motor V8 5.0 a gasolina entrega 430 cv e 55,6 kgfm de torque, associado a um câmbio sequencial de seis marchas. Suspensão independente e pneus de 37 polegadas completam o conjunto preparado para enfrentar especiais de centenas de quilômetros em terrenos que mudam constantemente.

 

O carro estreou no próprio Sertões, em 2024, e segue em desenvolvimento desde então. Em 2025, Guiga Spinelli venceu com ele o Sertões Series Tocantins. Neste ano, terá novamente como navegador o português Paulo Fiúza, atual campeão do Dakar entre os caminhões.

 

Da concessionária para a terra

 

A segunda Mitsubishi da equipe segue uma filosofia quase oposta. Enquanto a Ultimate nasceu como protótipo, a Triton Katana R procura preservar o máximo possível da picape encontrada nas ruas.

 

Ela mantém o chassi Mega Frame, o conjunto mecânico e o sistema de tração 4×4 Easy Select da Triton de produção. As principais alterações estão nos amortecedores, proteções inferiores, central eletrônica do motor, algumas peças da carroceria e, naturalmente, nos equipamentos de segurança exigidos para competição.

 

O motor turbodiesel 2.4 foi preparado para entregar 214 cv e 52 kgfm de torque. Pilotada por Youssef Haddad, com Vinícius Marcon na navegação, a Katana R competirá na categoria T2 Brasil.

 

L200 Evolution 2002 voltará ao Sertões para disputar a categoria Classic (divulgação)

L200 Evolution 2002 voltará ao Sertões para disputar a categoria Classic (divulgação)

Há também um propósito além do Sertões. O projeto funciona como laboratório para a Triton Katana R Cup, nova categoria que deverá integrar a Mitsubishi Cup a partir de 2027. É justamente a proximidade entre o carro de competição e o modelo de produção que torna essa experiência especialmente interessante.

 

A campeã está de volta

A terceira máquina dispensa qualquer tentativa de parecer nova. Pelo contrário: seu valor está justamente na história que carrega.

 

Depois de 18 anos longe das competições, uma L200 Evolution 2002 voltará ao Sertões para disputar a categoria Classic. E não se trata apenas de um exemplar restaurado para celebrar o passado. Foi com esse mesmo carro que Guiga Spinelli conquistou o Sertões em 2003 e 2004.

 

A L200 pertence a um período em que os veículos de rally preservavam uma ligação maior com seus equivalentes de produção. Desenvolvida no Brasil, tinha estrutura tubular, mas utilizava o powertrain da Pajero Full da época. O projeto acumulou vitórias durante os anos 2000 e marcou uma geração do rally raid nacional.

 

A história ganha outro componente com o retorno do navegador Marcelo Vivolo, parceiro de Spinelli entre 2003 e 2009. Juntos, eles conquistaram dois Sertões, quatro Campeonatos Brasileiros consecutivos, quatro Copas Bajas e quatro Copas Dunas. Desta vez, porém, Vivolo dividirá a L200 com Rodrigo Khezam, piloto, entusiasta de carros históricos de rally e responsável pelo projeto de restauração da picape.

 

Passado, presente e futuro no mesmo box

 

A reunião dos três carros ajuda também a contar a trajetória de Guiga Spinelli. Pentacampeão do Sertões — venceu em 2003, 2004, 2010, 2011 e 2014 —, ele disputou nove edições do Dakar e terminou duas delas entre os dez primeiros da classificação geral.

 

Guiga Spinelli (foto Sabryna Alencar)

Guiga Spinelli (foto: Sabryna Alencar)

Em 2026, além de tentar acrescentar mais uma vitória ao currículo, Spinelli chega ao Sertões como piloto e comandante de uma estrutura que reúne conceitos muito diferentes de automóvel de competição.

 

A L200 Evolution mostra como se corria no início dos anos 2000. A Katana R estreita novamente a distância entre pista e concessionária. E a Ultimate representa o estágio atual da engenharia brasileira para enfrentar a elite internacional do rally raid.

 

Em um esporte no qual pilotos e navegadores passam boa parte do tempo preocupados com o que existe depois da próxima curva, a Mitsubishi resolveu olhar também pelo retrovisor. E descobriu ali uma boa história para contar.

 

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