Japan House SP: exposição gratuita mergulha no universo poético da cor branca

Em cartaz até o dia 25 de outubro, a exposição reúne obras divididas em quatro núcleos: sal, neve, seda e papel

Cena da exposição Shiro: uma escala de nuances, na Japan House SP (Divulgação/Ricardo Amado)
Cena da exposição Shiro: uma escala de nuances, na Japan House SP (Divulgação/Ricardo Amado)

Por André Sollitto

 

Para os japoneses, a cor branca tem um significado especial. Evoca percepções de paz, purificação, leveza, silêncio e precisão. E é o tema central da exposição Shiro: uma escala de nuances, que fica em cartaz na Japan House SP, em São Paulo, até o dia 25 de outubro.

 

A mostra apresenta diferentes tonalidades da ​cor ​branca no Japão, passando por quatro elementos: papel, seda, neve e sal, revelando as suas relações com a cultura japonesa. Na entrada, um painel apresenta as 19 tonalidades de branco catalogadas oficialmente no Japão.

 

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No núcleo Papel, a instalação Poem of life, da artista Ayumi Shibata, é feita de inúmeras folhas de papel cortadas como na técnica de kiri-ê e amarradas entre si, simbolizando o desejo da artista pela paz e harmonia do mundo. 

 

No núcleo da Seda, ​​ a artista Kaoru Hirano desconstruiu um juban, peça de vestuário tradicional japonesa usada por baixo do quimono, branco. A roupa foi usada por sua avó paterna, e foi transformada em uma espécie de teia suspensa na obra untitled-grandmother, feita especialmente para o espaço da Japan House, com mais de quatro metros de comprimento.

 

O trabalho de Land Art de Tomohiro Kajiyama (Divulgação/Aoilo)

O trabalho de Land Art de Tomohiro Kajiyama (Divulgação/Aoilo)

 

O núcleo dedicado à Neve é dedicado a três fotografias e um vídeo do artista Tomohiro Kajiyama. Ele usa uma técnica conhecida como Land Art, que são intervenções feitas diretamente na paisagem natural. Nas imagens e no vídeo, Kajiyama caminha por paisagens do Norte do Japão. Guiado por sua intuição e pelas imagens que imagina, sai traçando desenhos na neve usando apenas os pés e um par de esquis.

 

Por fim, o núcleo do Sal reúne cinco tipos de sal, originários de diversas regiões do Japão, evidenciando suas diferentes características e granulações. O ingrediente tem um papel fundamental na cozinha japonesa.

 

A inspiração para a exposição veio da leitura de O País das Neves, obra do escritor Yasunari Kawabata publicada em 1948, durante o Clube de Leitura JHSP + Quatro Cinco Um, em junho do ano passado. No romance, o autor descreve as vastas paisagens brancas do norte do Japão e o processo de alvejamento de um tecido na neve.

 

Em entrevista a Versatille, a artista Kaoru Hirano, que esteve na Japan House SP e no Brasil pela primeira vez, falou sobre seu processo criativo e o significado da cor branca para os japoneses. Confira: 

 

Instalação “untitled-grandmother”, de Kaoru Hirano (Divulgação/Kaoru Hirano)

Versatille: Ao trabalhar com o juban de sua avó, você estabelece um processo de desconstrução. Como você define o equilíbrio entre preservar a integridade da peça original e a necessidade de desfazê-la para criar uma nova forma?

Kaoru Hirano: Eu gostaria de desfazer ainda mais. Mas se eu fizer isso, talvez eu não consiga passar o que eu quero para as pessoas. Pode ser uma limitação técnica da minha parte, mas eu preservo parte da roupa justamente para que percebam que se trata de uma roupa, que tinha o formato do corpo de alguém. Pessoalmente, se os visitantes conseguissem ver toda essa relação entre o trabalho e a pessoa, eu teria desfeito as minhas obras em fios.

 

V: Como definir a importância da cor branca para a cultura japonesa?

K.H.: A exposição está dividida em quatro núcleos: neve, sal, seda e papel. Tratam-se de materiais antes de receber a cor. Ou seja, é a cor da própria materialidade. A exposição Shiro serve justamente para isso. Mostrar como é a matéria antes de ser processada, antes de passar por qualquer alteração.

 

V: Você desenvolveu alguma técnica específica para trabalhar a seda nessa obra?

K.H.: Não uso nenhuma técnica especial. Pego o final de uma linha em uma peça e vou desfazendo até o final. No caso do juban da minha avó, fiz exatamente isso. Procurei o final da linha em cada pedaço da roupa e fui desfazendo um por um. A seda tem um fio muito fino, então deu muito trabalho. O ato de desfiar já foi muito trabalhoso. Mas notei que à medida que ia desfazendo, o fio começa a se emaranhar sozinho, cada vez mais encolhido. Senti como se esses fios da seda estivessem tentando voltar ao que eram, ao casulo de onde foram retirados.

 

A Japan House SP fica na Avenida Paulista, 52. A visitação pode ser feita de terça a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h. A exposição Shiro: uma escala de nuances fica em cartaz até o dia 25 de outubro, com entrada gratuita.