Reconhecida pela excelência de seu terroir, Campanha Gaúcha avança no enoturismo

Região fronteiriça com Uruguai e Argentina impressiona pela paisagem cinematográfica, apego às tradições do Pampa e clima ideal para elaborar vinhos e azeites premium. Para atrair mais visitantes, já tem até um trem turístico

Vista da Cordilheira de Sant'Ana com o Cerro Palomas ao fundo (foto: Heloisa Belluzzo)
Vista da Cordilheira de Sant'Ana com o Cerro Palomas ao fundo (Foto: Heloisa Belluzzo)

Por Celso Masson*

 

Quando se fala em Campanha Gaúcha, a primeira imagem que vem a mente é a vastidão do Pampa, com o gado pastando livre em meio às coxilhas e poucos homens a cavalo trajando poncho e bombacha, com a cuia de erva mate circulando de mão em mão. Esse cenário quase folclórico não está distante da realidade, mesmo nos tempos atuais. Mas ele não corresponde a que de fato se passa nessa imensa região, cuja área soma mais de 44 mil km2, o equivalente à metade do território de Portugal.

 

Quem visita a Campanha Gaúcha hoje se depara com a mesma paisagem bucólica que o imaginário popular consolidou e com a mesma autenticidade de uma gente que se orgulha de preservar as tradições de sua terra, aparentemente alheia à modernidade dos centros urbanos. Aos poucos, porém, o que se vê vai modificando essa percepção. No território onde a mistura de palavras em português e castelhano revela a proximidade das fronteiras com o Uruguai e a Argentina, o visitante inala o cheiro da lenha queimando, prova os sabores de carnes assadas na parrilha e se comove com a trilha sonora que conta muita história embalada em milongas. Também se encanta com os vinhos que nascem de um terroir reconhecido como Indicação de Procedência desde maio 2020 e com os azeites que vêm conquistando os principais prêmios internacionais do setor.

 

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Marcada por grandes batalhas, a região da Campanha Gaúcha vem se transformando rapidamente desde o ano 2000 sobretudo graças à introdução da vitivinicultura. Ainda que os primórdios da produção de uvas na região datem de 1886, quando foram plantados os primeiros vinhedos na Quinta do Seival (hoje pertencente ao Miolo Wine Group), foi só na virada do milênio que o movimento ganhou robustez. Para isso, foi fundamental a cooperação entre fazendeiros da Campanha e produtores tradicionais da Serra Gaúcha.

 

Diante de um parreiral da variedade Syrah erguido na Estância Paraizo, em Bagé, no ano 2000, o proprietário Thomaz Mercio e sua filha Victória contam uma história de luta e pioneirismo que começa em 1790, quando a família se instalou naquelas terras, e avança até os dias de hoje, com vinhos reconhecidos internacionalmente por críticos como Jancis Robinson e Tim Atkin. “Este é o primeiro vinhedo de Syrah registrado no Brasil”, diz Mercio, que importou mudas da África do Sul. A iniciativa de plantar vinhedos onde antes só se criava gado e ovelhas teve a participação de 25 fazendeiros locais e apoio técnico da vinícola Salton. “Foi com as uvas plantadas aqui, tanto a Syrah quanto a Cabernet Sauvignon, que a Salton passou a produzir rótulos como Talento e Desejo, que colocaram a empresa entre os maiores nomes do vinho brasileiro”, afirmou.

 

Integrante da décima geração da família Mercio no Sul do Brasil, Victória deu continuidade ao projeto de diversificação iniciado pelo pai na Estância Paraízo preservando com muito orgulho a história de seus antepassados, especialmente do Coronel Thomaz Mercio Pereira, que combateu na Revolução Federalista integrando o Exército Maragato.

 

Famíla Mercio em frente à capela e mausoléu da Estância Paraízo (foto: Heloisa Belluzzo)

Famíla Mercio em frente à capela e mausoléu da Estância Paraízo (Foto: Heloisa Belluzzo)

Segundo Victória, em seu último desejo, o coronel pediu para ser enterrado em uma “cova de touro”, no alto do cerro. Seus filhos ergueram ali uma imponente capela dedicada a São Jorge que desde 1916 serve de mausoléu do patriarca. Bem ao lado, onde está o melhor solo da propriedade, foram implantados os vinhedos que dão origem aos melhores tintos da Estância Paraizo – um deles batizado justamente Cova de Toro, um elegante corte de Syrah e Cabernet Sauvigon que dá nome também ao tour que a família oferece aos visitantes. Trata-se de uma experiência completa, com história, gastronomia regional e degustação de grandes vinhos, com destaque para o espumante Gaïda Nature (90 pontos na avaliação de Tim Atkin) e para o tinto Camilo Primeiro Syrah (referência ao vinhedo mais antigo da casta no país).

 

DO ARROZ À UVA

 

Pelo que oferece em termos de história da região e pioneirismo na vitivinicultura local, a imersão na Estância Paraízo pode ser considerada a melhor porta de entrada para quem deseja desbravar a Campanha Gaúcha. Porém, ela é apenas um pequeno recorte dentro das inúmeras opções que se estendem do munícipio de Candiota, palco da Batalha do Seival (1836), até Itaqui, no extremo oeste do estado, na divisa com a Argentina. Separadas por mais de 500 quilômetros, as duas cidades revelam aspectos bem distintos desse Brasil profundo.

 

Em Itaqui, maior produtor de arroz do país e berço do Grupo Camil (originalmente Cooperativa Agrícola Mista Itaquiense Limitada), a vinícola Campos de Cima tem se destacado não apenas pela produção de espumantes, brancos e tintos de alta gama como por oferecer em seu portfólio um fortificado em estilo Porto e um Brandy XO. Vale conhecer o Prometido 2022, blend de Tannat, Shiraz e Malbec que permaneceu por 18 meses em barricas de carvalho francês de primeiro uso e obteve a Grande Medalha de Ouro com 95 pontos no concurso Wines of Brazil Awards de 2025 e Duplo Ouro na Grande Prova Vinhos do Brasil, no mesmo ano 2025.

 

À frente da vinícola estão a carioca Hortência Ravache Brandão Ayub, o marido José Ayub, e as duas filhas do casal, Vanessa e Manuela. O projeto teve origem em 2002, com o plantio de 15 hectares de vinhedos em uma coxilha a cerca de 100 km da atual sede da vinícola. Até então, a família Ayub se dedicava ao arroz e à criação de gado. Com o bom resultado das uvas colhidas nas primeiras safras, até então vinificadas na Serra Gaúcha, veio a decisão de investir em uma vinícola própria, em 2008. Projetada por Manuela, que é arquiteta, a construção moderna e arrojada incorpora elementos característicos da Campanha, combinando elegância e um toque de rusticidade.

 

Segundo Hortência, elaborar rótulos com identidade local é uma das premissas da filosofia que orienta a produção, baseada em escala humana, cuidado artesanal e compromisso com a qualidade. Com o aumento do número de turistas interessados em conhecer a vinícola, uma antiga casa de funcionários foi adaptada para funcionar como pousada em esquema Airbnb. “Estamos perto da cidade, mas distantes de boas opções de acomodação”, diz Hortência, que recebe pessoalmente os visitantes para mostrar seus vinhos e contar sua história.

 

Se a falta de uma boa infraestrutura turística, incluindo a oferta de voos regulares para os aerportos da região, era um empecilho para tornar a Campanha Gaúcha um destino de grande visitação, a boa notícia é que esse cenário está mudando rapidamente. Simbolicamente, a face mais visível dessa evolução está associada a uma vinícola implementada há mais de meio século na região da Campanha Central, a Almadén, cuja criação na década de 1970, se deveu a um trabalho de pesquisa de campo conduzido pela Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos.

 

Vinhedo de Tannat da Almadén plantado em 1976 (foto: Celso Masson)

Vinhedo de Tannat da Almadén plantado em 1976 (Foto: Celso Masson)

Criada no século XIX, a Almadén pertencia à gigante National Distillers quando o Pampa despontou como terroir estratégico para sua expansão no Cone Sul. Após investigar o clima da região, a empresa elegeu o Paralelo 31, que corta Santana do Livramento, e ali adquiriu uma área de 1.200 hectares. Além de implantar vinhedos de variedades viníferas, investiu pesado em tecnologias de vinificação até então inéditas no Brasil. Adquirida pelo Grupo Miolo em 2009, a Almadén representa o passado, o presente e o futuro da vitivinicultura e do enoturismo na Campanha Gaúcha.

 

É lá que está o vinhedo de uvas finas mais antigo do Brasil, plantado no sistema de espaldeira em 1976 com a variedade Tannat. Dali saem as uvas do premiado Tannat Vinhas Velhas, um dos Sete Lendários da Miolo, produzido apenas em safras excepcionais. A reputação do rótulo, premiado em concursos dentro e fora do país, comprova a qualidade da matéria-prima obtida na propriedade há 50 anos.

 

Olhando para o futuro, a família Miolo criou atrativos para fomentar o enoturismo na região. Abriu o primeiro free shop dentro de uma vinícola no Brasil, o que permite vender seus produtos sem a incidência de parte dos impostos. Em parceria com a Giordani Turismo, conhecida por operar a Maria-fumaça de Bento Gonçalves, criou um roteiro ferroviário que parte da antiga estação de Livramento e chega até a parada de Palomas. O passeio, em um vagão moderno e confortável, é regado a vinhos e tem apresentações artistas locais.

 

Mais recentemente, a Almadén transformou um achado arqueológico em novo atrativo. Um abrigo escavado na rocha há 200 mil anos por animais como a preguiça gigante deu origem à “Vinotoca” e a um passeio que cruza o maior vinhedo do Brasil a bordo do ônibus-safári Pampeano. No caminho, a paisagem pontuada de cerros se impõe de forma espetacular.

 

Rosana Wagner Cordinheida de Sant'Ana

Rosana Wagner, proprietária da Cordinheida de Sant’Ana (Foto: Celso Masson)

Engenheira química que trabalhou por muitos anos na Almadén, Rosana Wagner decidiu ter sua própria área para plantar uvas e fazer vinhos de alta gama durante um passeio a pé pela encosta do Cerro Palomas. A decisão teve o apoio do marido, Gladistão, e em 1999 o casal comprou as terras que deram origem à vinícola Cordilheira de Sant’Ana. Vinte hectares foram plantados no ano 2000, com oito variedades viníferas. Em 2003, a vinícola passou a elaborar seus vinhos, que logo chamaram a atenção da crítica especializada.

 

Em 2025, a Grande Prova de Vinhos do Brasil atribuiu 93 pontos ao Cordilheira de Sant’Ana Cabernet Sauvignon 2005, que ficou com o prêmio de melhor dessa variedade no concurso. Um merecido reconhecimento à dedicação da enóloga que também preside a Associação Vinhos da Campanha, criada em 2010, e tem sido uma voz extremamente ativa no combate ao uso de herbicidas hormonais nas lavouras de soja. “O efeito desse agrotóxico é devastador sobre o parreiral. Houve safras em que perdemos toda a produção de algumas variedades, como a Gewürztraminer”, diz Rosana. No início de julho, a Vara Regional do Meio Ambiente proibiu o uso do herbicida hormonal 2,4D na região da Campanha, estabelecendo uma zona de exclusão de 50 metros em relação a pomares e vinhedos de todo estado. Uma pequena vitória, que não impede o uso de outros herbicidas nem garante que a decisão seja cumprida, já que falta fiscalização.

 

DIA ÉPICO

 

Parece um paradoxo que os produtores de uva da Campanha sofram para preservar a sanidade de seus parreirais. Até porque as condições climáticas são justamente a maior vantagem competitiva da vitivinicultura na região. Foi por acreditar no potencial da região para elaborar grandes vinhos que a família Pötter, proprietária da Estância Guatambu, em Dom Pedrito, deu início a um projeto experimental de cultivo de variedades viníferas importadas da França. Após dez anos de trabalho experimental, a vinícola Guatambu abriu as portas em 2013, ocupando uma área de 3 mil metros quadrados onde são elaborados alguns dos melhores espumantes e tintos do Brasil. O prédio, em estilo arquitetônico espanhol, é um primor de bom gosto e sofisticação, com a alma do Pampa em cada detalhe.

 

Uma vez por mês, a família Pötter recebe cerca de 100 visitantes para uma programação denominada Dia Épico, em referência a seu vinho ícone. Inclui visita, degustação, almoço harmonizado com música ao vivo e acesso livre ao pátio externo para relaxar até o cair da tarde. Uma oportunidade não apenas para tirar belas fotos e selfies como para conhecer o trabalho inovador da enóloga Gabriela Pötter.

Gabriela Pötter, enóloga e sócia da Vinícola Guatambu (Foto: Siderproduções/divulgação)

Gabriela Pötter, enóloga e sócia da Vinícola Guatambu (Foto: Siderproduções | Divulgação)

Na Guatambu, tudo é feito com maestria. Seus vinhos e espumantes conquistam premiações a cada safra e já têm sido considerados os melhores do Brasil de forma consistente. O Épico, obtido a partir do blend de três a quatro safras em que entram apenas as melhores parcelas de cada vinhedo, é uma joia da enologia brasileira. Não bastasse a qualidade do que coloca na taça, a Guatambu é a primeira vinícola do Brasil certificada como carbono negativo, o que mostra uma sensibilidade ambiental que muitas vezes falta no agro brasileiro.

 

Como não é só de vinho que vive a Campanha, vale citar a excelência do terroir para a produção de azeites. Com foco em produtos premium em produção limitada, a região reúne produtores aclamados em premiações internacionais. Conciliando a produção de vinhos e azeites de sete variedades, a vinícola Cerros de Gaya é um bom exemplo de como essas duas culturas podem se complementar na criação de experiências completas para o turista. Um parador no ponto mais alto da propriedade, com vista para os vinhedos de um lado e o pôr do sol do outro, permite entender o que é a Campanha em sua melhor expressão. Uma vastidão onde a natureza toca espírito e o incansável trabalho humano alimenta o corpo com o que de melhor a terra pode prover.

 

* O jornalista viajou a convite do Projeto Imagem Campanha, iniciativa do Sebrae-RS e Consetivis.