Arte: o salto quântico de Marcos Cavallaria
Em entrevista à Versatille, o artista visual, fotógrafo e diretor de videoclipes falou dos trabalhos exibidos na Art Basel Miami, Burning Man e de sua segunda participação no KURA

Por Celso Masson
Após apresentar seus trabalhos em importantes eventos internacionais, como Art Basel e Burning Man, o artista visual, fotógrafo e diretor Marcos Cavallaria retornou ao Edifício Cotonifício com a instalação imersiva Constellation Lucis, parte da exposição Kura Para Falar de Amor – Do que somos capazes?, que esteve em cartaz até o dia 14 de junho. Em entrevista à Versatille, ele falou sobre esse trabalho e sua experiência como diretor de videoclipes.
Versatille – Em sua segunda participação no KURA, você apresentou uma instalação de mais de 30 metros de altura. Como você compara essa obra à da primeira edição?
Na primeira edição, o espaço era horizontal, quase como um universo expandido, em dois grandes pavilhões. As obras coexistiam como atmosferas paralelas. Agora, a instalação deixou o chão, passando a ocupar o ar. O vão do elevador se transforma em um eixo entre matéria, luz, tempo e frequência. Cada altura vira um estado, cada espectro de cor uma vibração emocional. A instalação conversa com a ideia de que o amor não é apenas sentimento, mas também potência, uma força capaz de atravessar espaço, corpos e dimensões. As obras agora são mais simbólicas e contemplativas, coexistindo, suspensas, em diálogo com luz, espelhos, laser e optical art, criando uma arquitetura vibracional inspirada pela relação entre física, espiritualidade e percepção.
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Qual a importância de desenvolver parte das obras ao longo da própria exposição? Como o público participa ou influencia esse processo?
Desenvolver parte das obras durante a exposição transforma o processo artístico em algo vivo. A obra deixa de ser apenas um objeto finalizado e passa a existir como presença, transformação e frequência em movimento. Eu acredito muito nessa relação entre observador e manifestação. A própria física quântica nos mostra que o olhar altera o estado da matéria. De certa forma, sinto que acontece o mesmo na arte. O público não interfere diretamente na obra, mas a energia da observação potencializa o processo criativo. É como se o olhar coletivo funcionasse como uma lente de amplificação da manifestação. Ao mesmo tempo, existe uma vulnerabilidade muito bonita nisso tudo, porque o público deixa de assistir apenas o resultado e passa a testemunhar também o nascimento da obra em tempo real.
Sua trajetória inclui apresentações em contextos internacionais importantes, como a Art Basel, em Miami, e o Burning Man, no deserto de Nevada. De que forma essas experiências influenciaram esta nova instalação?
Minha trajetória internacional influenciou muito a forma como penso sobre instalação, narrativa e experiência. As primeiras exposições aconteceram naturalmente por meio das conexões entre cinema, moda, fotografia e arte em cidades como Nova York, Miami, Paris e Los Angeles. Mas foi no Burning Man que aconteceu minha grande alquimia artística. Lá, realizei projeções em grande escala em um ambiente onde arte, tecnologia e experimentação coexistem de forma radical. Já a Art Basel foi um grande aprendizado sobre síntese, curadoria, contexto e apresentação da obra. Trazer tudo isso para o Brasil, no KURA, teve um impacto emocional diferente. Há uma entrega muito intensa por parte do público brasileiro. Aqui as pessoas não apenas observam a obra, elas sentem a obra. E isso potencializa completamente a experiência artística.

Instalação de Marcos Cavallaria para a segunda edição do KURA (Divulgação)
Quais habilidades adquiridas no universo da moda e da fotografia você leva para obras de arte e vice-versa?
Eu comecei como artista, desenhando, pintando e estudando percepção, luz e composição. Tudo isso acabou migrando naturalmente para a fotografia e o cinema. E o universo da moda, com sua intensidade criativa e diversidade de narrativas, ampliou muito o meu olhar. Me obrigou a sintetizar ideias, refinar a estética, a direção emocional e a linguagem visual em diferentes contextos. Então existe uma retroalimentação constante. A arte alimenta o comercial com profundidade e experimentação. E o comercial alimenta a arte com técnica, ritmo e capacidade de execução. Para mim, eles não são mundos separados, mas complementares, uma espécie de ciclo criativo contínuo.
Você dirigiu o primeiro videoclipe do cantor Jaafar Jackson, sobrinho de Michael Jackson. Como vocês se conheceram e como foi gravar com ele?
Fui convidado pelo próprio Jaafar Jackson para dirigir o primeiro clipe da carreira dele, porque queria filmar no Brasil, inspirado pela conexão que Michael Jackson sempre teve com o país e com a nossa energia. Ele buscava um diretor brasileiro com um olhar internacional e acabou chegando ao meu nome. Para mim, foi algo profundamente emocional, porque Michael Jackson é literalmente o motivo pelo qual me tornei artista. Desde criança eu era completamente obcecado pela obra dele; dançava moonwalk, usava a luva e ouvia seus discos sem parar. Dirigir esse clipe teve um significado muito maior do que o de um trabalho. Foi quase um reencontro com a origem da minha paixão pela arte. E existe algo ainda mais especial: aquele clipe acabou sendo essencial para que o Jaafar fosse escolhido para interpretar Michael no longa. Quando ele compartilhou essa notícia conosco, fiquei muito emocionado.
