Como a Paraíba transforma o vinho em atrativo para o turismo

Casa Ferreira adapta casarão centenário na zona rural de Bananeiras para oferecer vivências que unem gastronomia, cultura, história e hospitalidade

Casa Ferreira (divulgação)
Taça de vinho servida na visita à Casa Ferreira, em Bananeiras (PB): vinho é o elemento central da jornada do visitante (Divulgação)

Por Celso Masson

 

A combinação entre vinho, paisagem e hospitalidade, tão associada a destinos consagrados como a Serra Gaúcha e, mais recentemente, a Serra da Mantiqueira, começa a ganhar novos contornos no Nordeste brasileiro. Em Bananeiras, na Serra Paraibana, a Casa Ferreira está construindo uma proposta que utiliza o universo do vinho como fio condutor para experiências culturais e gastronômicas voltadas a um público em busca de autenticidade.

 

Instalada em um casarão histórico de aproximadamente 150 anos, a iniciativa não nasceu como vinícola. Seu foco está na criação de experiências imersivas que combinam degustações orientadas por sommeliers, gastronomia regional, narrativas sobre a história da família Ferreira e roteiros cuidadosamente desenhados para gerar conexão emocional com os visitantes. O vinho aparece como elemento central dessa jornada, mas não como produto final.

 

LEIA MAIS

 

 

A proposta acompanha uma tendência observada em destinos internacionais, onde o enoturismo deixou de estar restrito às vinícolas e passou a incorporar cultura, entretenimento, patrimônio histórico e hospitalidade. Na Casa Ferreira, a intenção é posicionar Bananeiras como um novo polo de turismo de experiência no Brasil, valorizando características próprias da Serra Paraibana. Há duas salas ambientadas para uma imersão no passado da região e da própria casa, construída em fins do século XIX. Na Sala Poroca, a narração é de Dona Telma, enquanto na Sala Meu Nego a voz é do Dr. Jackson. Ambos contam a mesma história, mas cada um com seu olhar.

 

Visitante em uma das salas do casarão de 150 anos adaptado para proporcionar uma imersão na história local (Divulgação)

“Nosso propósito é criar memórias e proporcionar experiências únicas. O vinho é um elo que conecta as pessoas à história, à cultura e à gastronomia da região. Estamos construindo um destino que valoriza a identidade do Nordeste e mostra que a Serra Paraibana tem vocação para receber visitantes em busca de exclusividade, autenticidade e sofisticação”, afirma Kadu Milano, cofundador do projeto.

 

Com mais de uma década de atuação no mercado de grandes eventos, incluindo passagens por iniciativas como o Festival de Cinema de Gramado e o Carnaval do Rio de Janeiro, Milano vê na hospitalidade uma oportunidade para ampliar o potencial turístico da região. Antes de chegar à Paraíba, ele participou também do desenvolvimento do restaurante Baronesa, em Guaramiranga, na serra cearense.

 

Embora a produção de vinhos próprios faça parte dos planos futuros, por enquanto o que a Casa Ferreira serve aos hóspedes vem de longe. Bem longe. O rótulo com a casta Cabernet Sauvignon, da safra 2021, traz impressa a referência ao Planalto da Borborema, que se estende por quatro estados nordestinos e do qual faz parte o Pico do Jabre, na Paraíba, com quase 1200 metros. Mas a bebida foi produzida e engarrafada em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul.

 

 

Dona Telma Ferreira e Kadu Milano (divulgação)

Dona Telma Ferreira e Kadu Milano (Divulgação)

Isso porque neste momento a Casa Ferreira não está preocupada em revelar ao mundo o terroir paraibano. Ela concentra seus esforços na consolidação de uma plataforma de hospitalidade e experiências. O desenvolvimento das videiras é acompanhado como parte da narrativa oferecida aos visitantes, reforçando a vocação da Serra Paraibana para atividades ligadas ao enoturismo.

 

Para facilitar o acesso de visitantes, a Casa Ferreira já oferece um serviço de transfer desde a Estação de Bananeiras. Para o Dia dos Namorados, 12 de junho, foi criada a Casa Ferreira Wine Experience, com ingressos limitados vendidos pela plataforma Sympla. O programa inclui degustação de três rótulos (espumante, vinho branco e vinho tinto), entrada com queijos e charcutaria, prato principal, sobremesa e visita aos parreirais guiada por um agrônomo.

 

Mesmo que ainda não esteja pronta, uma produção experimental já está em andamento e as primeiras impressões ressaltam o bom desempenho das plantas cultivadas na região. Para Kadu Milano, contudo, o que o projeto tem a oferecer ao visitante transcende o vinho. “O vinhedo representa um símbolo do momento vivido por Bananeiras, que amplia sua oferta turística ao combinar clima ameno, patrimônio histórico, cultura e gastronomia”, afirma. A possibilidade de escrever sua própria história no mapa do vinho brasileiro, porém, não é nada desprezível.