Como o enólogo Francisco Baettig criou o melhor vinho tinto do Chile em 2026
Ao produzir um blend de Cabernet Sauvignon com castas tradicionais do Chile, atraiu o reconhecimento do guia Descorchados

Por André Sollitto
Depois que deixou seu cargo de consultor técnico do Viñedo Chadwick, onde ficou entre 2003 e 2023, foi eleito enólogo do ano em 2011, 2017, 2018 e 2020, conquistou 10 pontuações perfeitas e produziu alguns dos maiores vinhos do Chile, Francisco Baettig poderia aproveitar seu conhecimento na produção de grandes blends bordaleses à base Cabernet Sauvignon para se manter no topo da viticultura chilena. Fez o contrário. Ao lado do sócio Carlos de Carlos, que também tinha vasta experiência no marketing desses grandes rótulos de inspiração francesa, foi produzir Chardonnay e Pinot Noir no vale do Malleco, no sul do país. do Bordeaux, passou a olhar para a Borgonha. E foi reconhecido pelos vinhos lá produzidos.
Agora, retorna à uva que garantiu sua fama, mas de forma surpreendente. Lançou o rótulo Coronel, um blend que leva Cabernet Sauvignon, mas incorpora duas castas consideradas patrimoniais do Chile, a País e Carignan, de vinhedos muito antigos na região do Maule. Sob a D.O. de Cauquenes, o vinho é feito a partir de um único vinhedo e vem recebendo reconhecimento da crítica especializada.
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Rótulo Coronel (Reprodução | Worldwine)
Na edição deste ano do guia Descorchados, do jornalista Patricio Tapia, maior referência no vinho sul-americano, o Coronel recebeu 98 pontos e foi eleito o Melhor Blend Tinto ao lado de Stonevik, da vinícola Vik. “Já tínhamos falado sobre a joia escondida que é o cabernet do Maule, como ele é suculento, frutado e selvagem. Bom, lembre-se de tudo isso, porque este vinho tem uma relação muito estreita com os melhores tintos daquele vale”, escreve Tapia no guia. “Atenção a este vinho. Muita atenção.”
Coronel é produzido em um vinhedo do Maule, região a 200 quilômetros de Santiago. Tem 28 hectares, sendo seis hectares de Cabernet Sauvignon, seis hectares de País com mais de 100 anos idade, dois hectares de Carignan, enxertada sobre vinhedos centenários de País, e 14 hectares de floresta nativa integrada às parreiras. O antigo produtor queria vender tudo, mas acabou topando fazer uma parceria, recebendo mais pelas uvas como forma de manter aquele patrimônio vivo.
“É um terroir muito especial”, conta Baettig. “E uma das zonas mais diversas do Chile, com vinhedos diferentes plantados desde 1750”. Segundo o enólogo, o solo da região é resultado de uma formação de mais de 200 milhões de anos, granítico com presença de ferro e textura argilosa de fertilidade baixa. Isso faz com que o rendimento dos vinhedos seja pequeno, mas a qualidade da fruta é muito boa.
O Coronel é um vinho de parcela, ou seja, vem de um único vinhedo e é feito como um Grand Cru francês. A Cabernet Sauvignon usada foi enxertada sobre vinhedos de País com mais de 100 anos. O trabalho no campo é intenso. A País é muito mais produtiva, capaz de render até 15 toneladas por hectare, enquanto a Cabernet rende apenas uma tonelada por hectare. É preciso podar cada árvore individualmente, escolhendo manter apenas a cabernet. Sem esse cuidado, a País toma conta e se impõe como variedade dominante.
Nesta safra de 2024, a primeira lançada comercialmente, o blend leva 60% de cabernet sauvignon, 28% de País e 12% de Carignan. O vinho é fermentado em temperaturas mais altas, entre 24 e 26 ºC, e passa por uma maceração de até 20 dias. Depois, estagia por 17 meses em barricas de carvalho francês, sendo 70% delas novas e 20% em foudres, grandes toneis de capacidade maior.
O resultado é um vinho potente, com aromas de cassis e cereja e notas florais. O que surpreende é sua textura granulosa e argilosa, com acidez alta e taninos muito firmes, que pedem bastante tempo em garrafa. Foram apenas 1.440 garrafas produzidas. Aqui, no Brasil, o vinho é importado pela World Wine e custa R$ 1.590.
“Há muita discussão conceitual sobre o vinho como um ‘statement’, ou seja, uma declaração de intenções. Coronel é o que queremos do Chile. É para onde achamos que a viticultura chilena deve caminhar”, afirma Carlos de Carlos. O enólogo concorda. “Não queremos ser o Chateau Margaux de Margaux. Queremos ser o Coronel de Coronel de Maule”, afirma Baettig.



